Caras
e caros munícipes,
Este ano, por razões que são conhecidas de todos, não
teremos as habituais comemorações da Revolução de 25 de Abril de 1974.
Como ato simbólico, decidi participar no Hastear da
Bandeira na Praça da República e convidei os quatro vereadores para me
acompanharem nesse momento tão simples, mas tão carregado de significado. Não
teremos, como muito gostaríamos a habitual companhia da nossa banda, nem
passaremos por todas as localidades do concelho.
Se a pandemia de COVID-19 não se tivesse atravessado nas
nossas vidas, estaríamos hoje, todos juntos, a realizar a inauguração oficial
do Centro de Recolha Oficial de Animais do concelho do Alandroal e teria
preparado uma intervenção para a ocasião.
Como não terei a oportunidade de me dirigir a vós, como é
habitual, quero apenas deixar-vos uma ideia para reflexão.
E a ideia é muito simples e resulta do que tem sido a
minha vivência de sempre e destes quase dois meses de “mundo ao contrário” que
nos atingiu a todos.
Como se entrecruza o momento que estamos a viver com Abril
e o seu legado? Que lições devemos tirar para o futuro da nossa vivência
democrática desta tão dura experiência?
Há poucos dias um jornal perguntava-me, a propósito da
disponibilização de equipamentos informáticos a todas as crianças do concelho,
se tenho uma sensibilidade especial para as questões da Educação por ser
autarca e professor. Disse que é provável que sim, mas o principal motivo que
me leva a fazer isto não é o ser professor, é ter sido uma destas crianças.
Cresci numa das aldeias mais pequenas do concelho e por ser o irmão mais velho
percebi desde muito cedo as dificuldades que os meus pais passavam para educar
os três filhos.
Mas eles conseguiram fazer o que uns anos antes teria sido
impossível. Como milhares e milhares de outras famílias por todo o país, que
não teriam a mais pequena hipótese de retirar os seus filhos dos ciclos de
pobreza em que os seus pais e os seus avós atravessaram penosamente a ditadura,
Abril permitiu que todos nos tornássemos professores, eletricistas, médicos,
polícias, engenheiros... e mais, permitiu que os filhos chegassem mais longe
que os pais numa espiral positiva que vai beneficiar os nossos filhos também.

Hoje, vejo gente da minha geração, dos que cresceram como
eu, a ter elogio fácil para certos aspetos da ditadura ou a encontrar virtudes
na figura do ditador ou em ideias totalitaristas e pergunto-me como é possível!
Ao mesmo tempo, parece só encontrarem defeitos no nosso sistema atual. Como é
possível que tenham relativizado tanto esses tempos e esses horrores? Como
podem desprezar tanto o que têm hoje? Como podem ignorar o gigantesco salto de
qualidade de vida acesso à alimentação, saúde, educação, habitação... que este
país deu em 46 anos de democracia? Um pequeno país, a construir o seu percurso
democrático do zero e sempre vulnerável às convulsões internacionais?
Está tudo bem? Não, não está. Podia estar diferente? Podia
ser melhor? Claro que sim.
Mas foi o nosso Estado de Direito Democrático que nos
trouxe até aqui e é dentro das suas instituições que temos que encontrar as
soluções para o futuro.
Antes da pandemia, certas figuras recentes da cena
política nacional, “neo-salvadores da pátria”, aquelas que dizem umas
“verdades” e praticam outras, ajudadas por alguns media e pelo rastilho fácil
do azedume digital das redes sociais, empolavam até à exaustão as falhas do
nosso sistema ao ponto de já todos vermos na nossa frente quase só o que está
mal e gritavam por uma “refundação” a surfar descontentamentos avulsos e sempre
a tocar a música mais fácil de entrar no ouvido. Cheguei a ver gente referir-se
aos dias de hoje como “o estado a que chegámos” na mais abjeta distorção do
sentido que Salgueiro Maia deu à expressão. Pediam menos Estado e, peritos em
soluções fáceis para tudo, preconizavam nos seus programas eleitorais o fim do
Sistema Nacional de Saúde ou da Educação Pública.
Mas eis que surge a pandemia e todos mudam o discurso,
todos clamam por mais Estado, por mais respostas.
A situação excecional que vivemos veio mostrar um país que
funciona, que é capaz de dar melhor e mais rápida resposta que muitos países da
Europa com mais recursos que nós e que nos habituámos a ver como mais
organizados e desenvolvidos. Neste momento difícil, os portugueses devem ter
orgulho no seu Governo, nas suas Câmaras Municipais, Juntas de freguesia, nas
suas Instituições Públicas e em todos os seus profissionais, em especial todos
os profissionais das áreas médicas, que em conjunto com a sociedade civil e as
organizações privadas estão a dar o melhor por todos. Os portugueses devem ter
orgulho em si próprios.
Colocar o Conhecimento Científico e a Vida Humana acima de
qualquer outro interesse e parar um país de um dia para o outro devia ser comum
no século XXI, mas basta olhar para o que se passa no mundo, grandes países
incluídos, para podermos ver que não é bem assim. Orgulhemo-nos de ter
responsáveis assim e de ter uma sociedade com esta estrutura e lutemos por ela,
porque nada é garantido.
Tenho uma responsabilidade temporária neste concelho que
me coloca em contacto direto e frequente com os representantes do Governo, da
Saúde, da Proteção Civil, do Exército, das Forças de Segurança, da Segurança
Social... ao mesmo tempo, estou em permanente articulação com os responsáveis
locais destes organismos, com as restantes instituições do concelho e com
dezenas de munícipes que me procuram para expor os seus problemas. Já recebi
contactos do Governo e uma chamada de Sua Excelência o Presidente da República.
A todos os níveis vejo uma rede de cooperação bem montada e a funcionar. Vejo
unidade, um desígnio comum, orgulho em estarmos todos – cada um em suas casas –
juntos a lutar de igual forma por este retângulo e as suas ilhas e os milhões
de “ilhas” individuais que temos espalhadas pelo mundo.

A pandemia veio demonstrar o vazio do discurso dos que
querem explorar medos e inseguranças, frustrações e ódios, dos que são contra
tudo, dos que nos querem divididos pela raça, pela cor, pelo género, pela
religião, pela orientação sexual, dos que falam em “nós” e em “eles”, em
“público” contra “privado” ...
A pandemia veio demonstrar que o Estado Social assente
numa Democracia Participativa é a forma de organização de um país que melhor
garante resposta adequada em momentos de crise. Porque se preocupa com todos,
todo o tempo. Tem defeitos? Claro que sim. Mas só quando ele desaparece é que
alguns percebem a falta que faz.
Voltaremos a viver sem as atuais amarras, antes da próxima
ameaça viral, antes da próxima catástrofe natural, antes da mais que anunciada
crise climática.
Devíamos aprender muito com este processo e mudar muito no
nosso comportamento coletivo.
Saibamos, ao menos, o que fazer aos ouvidos quando os
“tocadores de violino” voltarem a gritar “caos”.
Viva
o 25 de Abril! Viva Portugal! Viva o Alandroal!
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